segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

SuperVia " massacra " usuários de trens.

Passageiros da agonia: de cada dez processos na agência reguladora de transportes, seis são contra a SuperVia
 
UP-302, US-122, UA-067, UP-109. Nos relatórios da Agência Reguladora de Transporte (Agetransp), são apenas siglas de composições ferroviárias.

 Para os passageiros da SuperVia, significam bem mais: caminhadas sobre os trilhos, debaixo de sol e chuva, sustos, atrasos, medo, revolta. Os quatro trens — que sofreram panes ou acidentes entre 3 de novembro e 29 de dezembro do ano passado — representam apenas uma pequena parcela dos problemas ocorridos no ano passado no serviço da concessionária.

A quilometragem do caos da malha ferroviária da Região Metropolitana do Rio é de pelo menos um incidente por semana, durante 2011, e se reflete nos processos abertos pela Agetransp no período: quase seis em cada dez (58,8%) são contra a SuperVia. Isso representa mais do que as ações abertas contra Metrô Rio, Barcas S/A, Rota 116 e Via Lagos, juntas.

Em 2011, foram 113 autos administrativos registrados na Agetransp contra a concessionária de trens. Desde 1998, a agência aplicou R$ 1.794.028 em penalidades à SuperVia. Deste total, R$ 847.131,94 estão inscritos na dívida ativa, e R$ 720.697, em fase de recurso. No entanto, somente R$ 226.452,94 foram pagos. Em 13 anos, somente 5,15% das ocorrências viraram multas. As restantes se transformaram em simples advertências.

Os números revelam um agonia que, em 365 dias do ano, atropela a rotina de meio milhão de usuários de trem. Depois de ser obrigada pelo Poder Judiciário a empregar pontualidade nas viagens, sob pena de multas milionárias, os atrasos do sistema foram o único problema que a SuperVia conseguiu contornar.

A dez dias de executar novo aumento da passagem única (de R$ 2,80 pra R$ 2,90), a empresa ainda não cumpriu sequer um terço das melhorias anunciadas desde que foi assumida pela Odebrecht, há 14 meses. A instalação de ar-condicionados na maior parte da frota, por exemplo, ainda estão no papel. Em fevereiro do ano passado, a tarifa estava em R$ 2,50. Em um ano, um aumento de 16%.
—Essa é uma obrigação da concessionária e a gente não foge dela.

 Quisera eu, em vez de gastar R$ 80 milhões, investir R$ 100 milhões, para não ter mais problema. Mas o fato é que, se temos um fusquinha, não adianta gastar R$ 50 mil nele, porque vai continuar dando problema — justifica o presidente da SuperVia, Carlos José Cunha, referindo-se à renovação total da frota, planejada para ocorrer até 2016, e à preparação dos 30 trens, já comprados pelo governo estadual.

Enquanto as novidades não chegam, os passageiros do UP-302, do US-122, do UA-067, do UP-109 e dos demais 156 trens da SuperVia contam os dias, e esperam que a agonia do dia a dia seja menos do tamanho dos defeitos nas composições e mais da dimensão das multas aplicadas.

Cinco sinônimos de descaso

Em cinco dias de reportagem ouvimos 80 passageiros em quatro dos oito ramais do sistema ferroviário do Rio (Belford Roxo, Saracuruna, Santa Cruz e Japeri). Pelo menos um dentre os seguintes problemas foi apontado por 72 dos entrevistados:

O calor nos vagões velhos; a superlotação das viagens no começo da manhã e final da tarde; a bagunça dos camelôs nos trens; a falta de supervisão dos carros especiais (restritos ao uso de mulheres nos horários de pico); a pouca segurança nas estações, como a de Costa Barros; o sucateamento das composições em grande parte das linhas, como a auxiliar do Mercadão de Madureira; e o despreparo no atendimento dos fiscais de plataforma.


— Viajar de trem é um martírio. Parece que estão transportando bicho e não gente. São anos de descaso – resume a telefonista Niedja dos Santos, de 43 anos.( Fonte : extra , 23/1/2012)